A alma é imortal?

A Igreja ensina que cada alma espiritual é criada directamente por Deus, não é “produzida” pelos pais, e é imortal, ou seja, não perece quando se separa do corpo na morte, e voltar-se-á a unir ao corpo na ressurreição final.

Embora a doutrina da imortalidade da alma esteja claramente revelada nas Escrituras, existem seitas e denominações protestantes (Testemunhas de Jeová, Adventistas do Sétimo Dia, etc.) que, apegando-se a uma interpretação errada da Bíblia, obstinam-se em rejeitá-la.

Quais são os argumentos das seitas para negar a imortalidade da alma?

No caso das Testemunhas de Jeová, apresento um resumo da sua revista Despertai, de 22 de outubro de 1982, na qual apresentam os argumentos que utilizam para negar a imortalidade da alma.

“As Testemunhas de Jeová… acreditam que a alma humana é mortal, que os mortos não sentem absolutamente nada. A que se deve esta crença? …os escritores das Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento) jamais, nem uma só vez, acrescentaram às palavras “néphesh” (palavra hebraica para “alma”) nem “rúahh” (palavra hebraica para “espírito”) a qualificação de “imortal”. Pelo contrário, ensinaram que a alma humana morre: “A alma que pecar, essa morrerá.” (Ezequiel 18,4.20, Versão Moderna; veja também Salmo 22,29; 78,50.) Diz-se que os mortos estão inconscientes: “Porque os vivos sabem que vão morrer, mas os mortos não sabem nada, e já não há recompensa para eles… Tudo o que estiver ao teu alcance fazer, faze-o com as tuas forças, porque não haverá obra, nem raciocínio, nem ciência, nem sabedoria no sheol [sepulcro comum da humanidade] para onde te encaminhas.” — Eclesiastes 9,5.10, Bíblia de Jerusalém. As Escrituras Gregas (Novo Testamento) apresentam o mesmo ponto de vista sobre a alma e a morte. Jesus disse que Deus “pode destruir tanto a alma como o corpo.” Portanto, se a alma pode ser destruída, não pode ser imortal. (Mateus 10,28) A respeito de Jesus, o Apóstolo Pedro declarou: “Qualquer alma que não escute aquele Profeta será completamente destruída.” (Atos 3,23) Jesus também mostrou que os mortos estão inconscientes, pois comparou a morte a ‘um sono que traz descanso.’ (João 11,11-14) Isso está em harmonia com o que qualquer pessoa que assista a um funeral pode facilmente discernir ao ver o corpo do falecido.

Segundo o relato da criação registrado em Génesis 2,7, Adão foi formado do pó da terra e “o homem veio a ser uma alma vivente.” Portanto, a Bíblia frequentemente usa a expressão “sua alma” para se referir à pessoa “mesma”.”[1]

Partindo deste breve resumo, podemos analisar os seus argumentos para estudá-los um por um.

Argumento 1: Os mortos não têm consciência de nada

“Os que estão vivos sabem que hão-de morrer, mas os mortos não sabem nada, nem para eles há ainda retribuição, pois a sua lembrança foi esquecida.O seu amor, ódio e inveja pereceram juntamente com eles; e nunca mais terão parte em tudo quanto se faz debaixo do céu.” (Eclesiastes 9,5-6)

As Testemunhas de Jeová tomaram este texto bíblico literalmente e fora de contexto para afirmar que, quando uma pessoa morre, não tem consciência de nada; portanto, não há uma alma imortal que a sobreviva. Do ponto de vista delas, quando alguém morre, deixa de existir e fica apenas “na memória de Jeová”. Mas, para entender por que as Testemunhas de Jeová chegaram a essa conclusão, é preciso compreender a sua forma de interpretar as Escrituras. Provavelmente, a principal dificuldade reside em não compreender que a Revelação Divina foi progressiva. Não deveria surpreender-nos o facto de não encontrarmos nenhuma referência à ressurreição em todo o Pentateuco (as primeiras menções aparecem em Isaías 26,19 e Daniel 12, e até mesmo nos tempos de Jesus os saduceus a rejeitavam), pois, naquela época, ainda não tinha sido revelada. A própria revelação do Messias como Filho de Deus e Deus encarnado não é tão clara no Antigo Testamento como no Novo. Muitos exemplos poderiam ser citados, mas certamente qualquer leitor atento notará, sem grande dificuldade, esse desenvolvimento da Revelação à medida que avança na leitura das páginas da Bíblia, o que implica que houve momentos da história em que o conhecimento de certas verdades era parcial e limitado, e foi-se aprofundando progressivamente.

O mesmo aconteceu com a compreensão do povo de Deus em relação ao seu conhecimento do além e, sobretudo, em relação à recompensa ou castigo de cada um. Assim, para o autor do Eclesiastes, como para os autores dos livros sagrados anteriores, não havia um conhecimento claro de recompensa ou castigo, salvo pelos bens e males da vida presente. Parece, sim, entrever que Deus julgará as ações do justo e do ímpio (Eclesiastes 3,17; 11,9; 12,14), mas sem conhecer a natureza da recompensa.

Dessa forma, é fácil compreender que o autor não está a pôr em causa a imortalidade da alma e a retribuição futura, mas sim as desconhece e, por isso, compara a condição dos vivos com a dos mortos conforme as suas concepções sobre o Seol (lugar onde, antes da ressurreição de Cristo, as almas descansavam e onde já não participavam do mundo dos vivos).

Podem encontrar-se textos ao longo de todo o livro que confirmam isto: “Quem sabe se o sopro de vida dos humanos sobe e se o sopro de vida das bestas desce à terra?” (Eclesiastes 3,21). O próprio autor reconhece aqui não saber o que sucede com o sopro de vida dos humanos e se este se diferencia do das bestas.

Em outra parte, ele escreve: “Porque o homem e a besta têm a mesma sorte: morre um como o outro; ambos têm o mesmo sopro de vida. Em nada o homem tem vantagem sobre a besta…” (Eclesiastes 3,19), textos que dão a entender que o autor fala a partir do que conhece e do que até aquele momento tinha sido revelado. No entanto, as Testemunhas de Jeová sustentam toda a sua doutrina em textos do Antigo Testamento, quando a Revelação estava em pleno progresso, e vêem-se obrigadas a deturpar todos os textos claros do Novo Testamento que se opõem à sua interpretação.

O mais contraditório da sua teologia é que, ao interpretar Eclesiastes 9,5-6 da forma como o fazem, deveriam concluir que também não há recompensa futura, já que o texto afirma que para os mortos “já não há recompensa para eles”, ainda que saibamos que “o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará cada um segundo as suas obras” (Mateus 16,27).

Argumento 2: A Alma que pecar, morrerá

“Todas as vidas me pertencem, tanto a vida do pai como a do filho, todas me pertencem. O que pecou é que morrerá.” (Ezequiel 18,4)

De alguma forma, as Testemunhas de Jeová optaram por interpretar este texto no sentido de que se refere à aniquilação ou destruição da alma. Talvez, aqui, a principal dificuldade seja a falta de compreensão do significado da palavra morte na Bíblia, que, nalguns casos, se refere à separação da alma e do corpo (morte física), mas, noutros casos, à separação do homem de Deus em razão do pecado (morte espiritual).

Alguns textos onde a morte faz referência à separação da alma e do corpo:

Ora no momento do último suspiro – pois estava a morrer – deu-lhe o nome de Ben-Oni; mas seu pai chamou-o Benjamim.” (Génesis 35,18)

“É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Se, entretanto, eu viver corporalmente, isso permitirá que dê fruto a obra que realizo. Que escolher então? Não sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós.” (Filipenses 1,21-24)

No texto anterior, São Paulo tem consciência de que, ao morrer, deixará o corpo para estar com Cristo; prefere, contudo, permanecer ainda na carne, mas por causa da evangelização. O texto seguinte é ainda mais explícito:

“Portanto, estamos sempre confiantes e conscientes de que, permanecendo neste corpo, vivemos exilados, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão… Cheios dessa confiança, preferimos exilar-nos do corpo, para irmos morar junto do Senhor. Por isso também, quer permaneçamos na nossa morada, quer a deixemos, esforçamo-nos por lhe agradar.” (2 Coríntios 5,6-9)

Basta este texto para desmontar toda a teologia das Testemunhas de Jeová e dos adventistas, pois fala explicitamente de como se pode viver no corpo e fora dele, e que, em ambos os estados, podemos esforçar-nos por agradar a Deus.

Alguns textos em que a morte se refere à separação do homem de Deus em razão do pecado:

“Também a vós, que estáveis mortos pelas vossas faltas e pecados.” (Efésios 2,1)

“…precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo – é pela graça que vós estais salvos.” (Efésios 2,5)

“A vós, que estáveis mortos pelas vossas faltas e pela incircuncisão da vossa carne, Deus deu-vos a vida juntamente com Ele: perdoou-nos todas as nossas faltas.” (Colossenses 2,13)

É por isso que não é coerente interpretar Ezequiel 18,4 como uma aniquilação da existência da alma, mas antes como aquilo que realmente significa: um estado em que a alma fica afastada de Deus por toda a eternidade.

“Com efeito, é justo da parte de Deus retribuir com tribulações àqueles que vos atribulam e a vós, os atribulados, retribuir com o repouso, juntamente connosco, aquando da manifestação do Senhor Jesus que virá do Céu com os anjos do seu poder, em fogo ardente, e fará justiça aos que não conhecem a Deus e não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus. O seu castigo será a ruína eterna, longe da face do Senhor e da glória da sua força.” (2 Tessalonicenses 1,6-9)

“Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora.” (Lucas 13,28)

Outras referências à morte da alma, não como uma aniquilação definitiva, mas como uma separação do homem de Deus, encontramo-las no Apocalipse, onde se fala da segunda morte:

“Digo-vos que, do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete com Abraão, Isaac e Jacob, no Reino do Céu, ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.” (Mateus 8,11-12)

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Aquele que vence não será vítima da segunda morte.(Apocalipse 2,11)

“Mas os covardes, os infiéis, os depravados, os assassinos, os impúdicos, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão como herança o lago ardente de fogo e enxofre, o qual é a segunda morte.” (Apocalipse 21,8)

“O Diabo, que os tinha enganado, foi precipitado no lago de fogo e de enxofre, onde também estão a Besta e o falso Profeta. Aí serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos dos séculos.” (Apocalipse 20,10)

Ao ler cuidadosamente esses textos, é possível perceber que a segunda morte (chamada assim justamente por ser a morte da alma), que sofrerão os condenados juntamente com o Diabo, a besta e o falso profeta, implicará não apenas em ser afastados de Deus por toda a eternidade (pena de dano), mas também numa espécie de tormento eterno (pena de sentido).

“Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a ignomínia, para a reprovação eterna.” (Daniel 12,2)

Em absolutamente todos os textos que falam do destino final dos condenados (Mateus 8,12; 13,42; 24,51; 25,30; Lucas 13,28), encontramos o mesmo: a morte da alma é um estado de separação definitiva de Deus, e nunca se fala numa destruição ou cessação da existência.

Nota: As Testemunhas de Jeová afirmam que somente os justos ressuscitarão. Na sua perspetiva, isso faz sentido, pois não faria sentido que os injustos ressuscitassem apenas para serem destruídos novamente. No entanto, observe que isso contradiz o que o profeta Daniel já havia profetizado no texto que acabou de ser citado (Daniel 12,2).

Argumento 3: Jesus afirmou que Deus “pode destruir tanto a alma como o corpo”. Assim, se a alma pode ser destruída, não pode ser imortal (Mateus 10,28).

Aqui, o erro das Testemunhas de Jeová é, novamente, interpretar essa morte da alma como uma aniquilação. O seu argumento é que o texto grego utiliza a palavra ἀπόλλυμι (apólumi), que traduzem e interpretam literalmente como destruir. O dicionário de grego Strong nos dá o seguinte significado:

G622

ἀπόλλυμι (apólumi)

de G575 e a base de G3639; destruir completamente (reflexivamente perecer, ou perder), literal ou figurativamente: destruir, matar, morrer, perder, perdido, perecível, perecer.

Não há razão alguma para interpretar, nesse passo, a palavra apólumi como uma aniquilação ou destruição literal da alma. O contexto do próprio texto não só rejeita essa ideia, como também a refuta.

Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma.” (Mateus 10,28)

Dado que os adventistas e as Testemunhas de Jeová não acreditam na imortalidade da alma, como é que algo poderia matar apenas o corpo e não matar a alma? Recorde-se de que eles afirmam que não existe alma que sobreviva ao corpo e que, ao morrer o corpo, a alma também morre. No entanto, não é isso que Jesus afirma aqui, mas sim o contrário. Um acidente ou qualquer acontecimento natural pode matar o corpo sem matar a alma; por isso, Jesus exorta-nos a não temer essas coisas, mas sim Aquele que pode fazer perecer ambos. Assim, o contexto de morte ou destruição da alma mencionado aqui não é uma aniquilação, mas sim um estado de morte espiritual definitiva.

 

Evidências bíblicas da imortalidade da alma

Evidência 1: A promessa feita ao bom ladrão

Certamente todos nos recordamos do que aconteceu com o bom ladrão quando Jesus foi crucificado:

“Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: ‘Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.’ Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: ‘Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas ações mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.’ E acrescentou: ‘Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.’ Ele respondeu-lhe: ‘Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.’” (Lucas 23,39-43)

O interessante desse episódio é que Jesus promete ao bom ladrão que ele estaria nesse mesmo dia com Ele no paraíso. Mas como é que isso poderia acontecer se a alma não sobrevive ao corpo? Dado que este simples texto desmoronaria instantaneamente toda a teologia das Testemunhas de Jeová e dos adventistas, eles inventaram um argumento bastante original para se justificarem, que consiste em alegar que, como naquela época não havia sinais de pontuação, o que Jesus quis dizer foi: “Eu te asseguro hoje, estarás comigo no paraíso” (repere onde colocam a vírgula) ou, por outras palavras: “Eu te asseguro hoje, que algum dia estarás comigo no paraíso” (a posição de uma vírgula pode mudar todo o sentido de uma frase).

O problema desse argumento é que essa forma de se expressar era completamente estranha à maneira de falar de Jesus que se encontra em todo o Novo Testamento. Quando Jesus utilizava a expressão “em verdade te digo” (outras traduções trazem “eu te asseguro”, etc.), nunca a empregava dessa forma. Existem dezenas de exemplos, alguns dos quais podemos mencionar:

Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres.” (João 21,18)

Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.” (Mateus 5,26)

“Em resposta, Jesus declarou-lhe: ‘Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer do Alto não pode ver o Reino de Deus.’” (João 3,3)

“Jesus respondeu-lhe: ‘Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.’” (João 3,5)

Em verdade, em verdade te digo: nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não aceitais o nosso testemunho.” (João 3,11)

“Replicou Jesus: ‘Darias a vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: não cantará o galo, antes de me teres negado três vezes!’” (João 13,38)

Em todas essas ocasiões, Jesus nunca disse “Em verdade te digo HOJE”, mas apenas, e de forma muito solene, “Em verdade te digo”.

Nas únicas ocasiões em que Jesus utilizou a palavra “hoje” nesse tipo de expressões foi para afirmar que tal acontecimento se realizaria nesse mesmo dia.

“E Jesus disse: ‘Em verdade te digo, que hoje, esta noite, antes de o galo cantar duas vezes, tu me terás negado três vezes.’” (Marcos 14,30)

Aqui, nenhum adventista nem Testemunha de Jeová ousaria dizer que Cristo estava a dizer “HOJE” que algum dia Pedro O negaria, pois sabemos que Cristo se referia ao facto de que Pedro O negaria nesse mesmo dia.

Outros exemplos em que Jesus utilizou este tipo de expressão, sem nunca usar “HOJE” para reafirmar a sua promessa ou ensinamento, podem ser encontrados ao longo de todo o Evangelho (Mateus 3,9; 5,22; 5,28; 5,32; 5,34; 5,39; 5,44; 12,36; 19,9; 21,27; Lucas 4,25; 9,27; 11,9; 12,44; 16,9; 19,26; João 16,7).

As Testemunhas de Jeová e os adventistas afirmam também que o bom ladrão não poderia ter estado com Jesus nesse mesmo dia no paraíso, porque Jesus subiu ao Pai depois da ressurreição:

“Jesus disse-lhe: ‘Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus.’” (João 20,17)

A esta aparente contradição, comenta Santo Tomás de Aquino na Suma de Teologia, Parte III, q.52, a.4:

“Cristo, para assumir em si mesmo as nossas penas, quis que o seu corpo fosse posto no sepulcro, assim como quis que a sua alma descesse ao inferno. Mas o seu corpo permaneceu no sepulcro um dia inteiro e duas noites para que se comprovasse a verdade da sua morte. Por isso, é de se acreditar que também a sua alma tenha estado outro tanto no inferno, a fim de que saíssem ao mesmo tempo a sua alma do inferno e o seu corpo do sepulcro.”

Mais adiante, continua:

“Cristo, ao descer ao inferno, libertou os santos que ali estavam, não os tirando imediatamente do lugar do inferno, mas iluminando-os com a luz da sua glória no próprio inferno. E, no entanto, foi conveniente que a sua alma permanecesse no inferno durante todo o tempo em que o seu corpo esteve no sepulcro.”

“Essas palavras do Senhor devem ser entendidas, não do paraíso terrestre corpóreo, mas do paraíso espiritual, no qual se diz que vivem os que gozam da vida divina. Por isso, o ladrão desceu localmente com Cristo ao inferno, para estar com Ele, uma vez que lhe disse: estarás comigo no paraíso; mas, em razão da recompensa, esteve no paraíso porque ali gozava da divindade, como os demais santos.”

Evidência 2: A parábola de Lázaro e o rico

“Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.’ Abraão respondeu-lhe: ‘Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tampouco vir daí para junto de nós.’ O rico insistiu: ‘Peço-te, pai Abraão, que envies Lázaro à casa do meu pai, pois tenho cinco irmãos; que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.’ Disse-lhe Abraão: ‘Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!’ Replicou-lhe ele: ‘Não, pai Abraão; se algum dos mortos for ter com eles, hão de arrepender-se.’ Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.’” (Lucas 16,19-31)

Aqui temos, da boca do próprio Jesus, uma parábola em que, a partir de personagens fictícios, nos explica uma situação real aplicável a cada um de nós: a recompensa ou castigo que receberemos de acordo com as nossas obras.

Não se deve acreditar, como acreditam as seitas, que, por ser uma parábola, não contém ali um ensinamento real. Seria bastante curioso que Jesus utilizasse uma parábola que aludisse à imortalidade da alma se realmente essa fosse uma doutrina pagã. Pois, se a alma fosse mortal, nada mais inapropriado do que utilizar uma parábola cuja interpretação reforçaria a concepção judaica da imortalidade da alma, quando Jesus poderia perfeitamente ter alterado um pouco a parábola, indicando que o rico simplesmente deixaria de existir após a sua morte, enquanto Lázaro seria recompensado ressuscitando no último dia.

Evidência 3: A transfiguração

“Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou-os, só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim. Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele.” (Marcos 9,2-4)

Aqui encontramos outro evento que derruba a teologia das seitas, pois, se a alma não sobrevive ao corpo, não se explica como Moisés e Elias puderam conversar com Jesus. É oportuno recordar que a morte de Moisés está claramente registada nas Escrituras (Deuteronómio 34,5-6). Adicionalmente à transfiguração, temos o facto de que Samuel foi evocado pela feiticeira de Endor (Samuel, após a morte, é evocado por ordem de Saul) (1 Samuel 28,6-20). Tanto no caso de Samuel como no de Elias e Moisés, não se pode alegar que se trata de parábolas, tampouco de alucinações, e muito menos, como me comentou alguém de crenças adventistas numa ocasião: que Samuel era um demónio e Moisés ressuscitou. No caso de Samuel, é a própria Escritura que claramente o identifica:

“Disse-lhe, então, a mulher: ‘A quem invocarei para esse assunto?’ Respondeu-lhe Saul: ‘Faz com que me apareça Samuel.’ E a mulher, tendo visto Samuel, soltou um grande grito, e disse a Saul: ‘Porque me enganaste? Tu és Saul!’ Disse-lhe o rei: ‘Não temas! Que viste?’ Respondeu a mulher: ‘Vi um espírito que subia da terra.’ Saul replicou: ‘Qual é o seu aspecto?’ Replicou: ‘O de um ancião envolto num manto.’ Saul compreendeu que era Samuel e prostrou-se com o rosto em terra. Samuel disse a Saul: ‘Porque perturbaste o meu repouso, fazendo-me vir aqui?’ Respondeu Saul: ‘Estou numa grande angústia, porque os filisteus me atacam e Deus retirou-se de mim, não me respondendo, nem pelos profetas, nem pelos sonhos. Chamei-te para que me digas o que devo fazer.’ Samuel disse-lhe: ‘Porque me consultas, uma vez que o Senhor se retirou de ti, tornando-se teu adversário? O Senhor fez como havia anunciado pela minha boca. Ele tirará a realeza da tua mão para a dar a outro, a David.’” (1 Samuel 28,11-17)

Observe-se que, nesse texto, é a Escritura que identifica a aparição como sendo Samuel, repetidamente indicando: “Saul compreendeu que era Samuel”, “Samuel disse a Saul”, “Disse Samuel”. Em nenhum momento se afirma que a aparição não era quem dizia ser, e ao narrar o facto, ela é identificada como Samuel. Atribuir a essa aparição a identidade de um demónio não passa de uma suposição que vai além do texto e que é aceite pelos adventistas e Testemunhas de Jeová com base em preconceitos na sua teologia. Também não há na Escritura qualquer alusão à ressurreição de Moisés. Os adventistas, na sua defesa, citam o seguinte texto bíblico:

“Até mesmo Miguel, o arcanjo, quando discutia com o diabo, disputando-lhe o corpo de Moisés, não se atreveu a pronunciar uma sentença injuriosa contra ele, mas disse somente: Que seja o Senhor a castigar-te!” (Judas 1,9)

Desse texto concluem que São Miguel disputava com Satanás o corpo de Moisés porque desejava ressuscitá-lo, contudo, novamente aqui nos deparamos com uma especulação que vai além do que o texto diz, pois em parte alguma se menciona a razão da disputa. Existem diferentes tradições que apresentam múltiplas explicações para esse facto. Uma tradição referida por Ecuménio[2] narra que o diabo se opunha a um sepultamento honroso de Moisés por considerá-lo um assassino, já que havia matado um egípcio. Outra possível explicação é que Satanás queria usar o corpo de Moisés para levar o povo à idolatria. Em qualquer caso, não há qualquer menção de que São Miguel disputasse o corpo de Moisés com a intenção de o ressuscitar, e não há qualquer precedente nas Escrituras em que um anjo tivesse o poder de ressuscitar pessoas.

 

Evidência 4: Cristo pregou aos espíritos em prisão

“Também Cristo padeceu pelos pecados, de uma vez para sempre – o Justo pelos injustos – para nos conduzir a Deus. Morto na carne, mas vivificado no espírito. Foi então que foi pregar também aos espíritos cativos, outrora incrédulos, no tempo em que, nos dias de Noé, Deus os esperava pacientemente enquanto se construía a Arca; nela poucas pessoas – oito apenas – se salvaram por meio da água.” (1 Pedro 3,18-20)

Este texto faz alusão à descida de Cristo aos infernos (o Sheol para os hebreus) após a sua morte na cruz, onde pregou a todos aqueles justos que estavam retidos, à espera de que Cristo, com a sua morte e ressurreição, abrisse o caminho para entrarem no Céu (Hebreus 2,10; 9,8.15; 10,19-20; 1 Pedro 3,19). Não é necessário dizer que, neste evento, encontramos outra prova palpável da imortalidade da alma, dado que a pregação de Cristo foi dirigida aos defuntos.

Alguns protestantes veem neste evento um simples ato de presença diante dos demónios ou um ato condenatório. No entanto, o sentido do verbo grego κηρύσσειν (pregar) é indicado pelo contexto geral, que trata da misericórdia de Deus e dos efeitos da redenção. A pregação teve de ser, portanto, o anúncio de uma boa nova, o que estaria em harmonia com as palavras de Pedro quase imediatamente a seguir:

“Pois para isto foi o Evangelho também pregado aos mortos; a fim de que, muito embora condenados na sua vida corporal segundo o juízo dos homens, vivam, contudo, em espírito segundo o juízo de Deus.” (1 Pedro 4,6)

A hipótese de uma pregação condenatória estaria em contradição com o espírito da passagem. Além disso, é importante destacar que o verbo κηρύσσειν, no Novo Testamento, é sempre usado para designar a pregação de uma boa nova.

Também não há espaço para a suposição de que fossem demónios, pois se faz referência a pessoas incrédulas que viveram nos tempos de Noé. É necessário notar, contudo, que embora o Apóstolo destaque especialmente os contemporâneos de Noé, isso não significa que ele exclua o restante dos justos, mas sim que ressalta a eficácia redentora de Cristo, que alcançou até mesmo aqueles que em outro tempo foram considerados grandes pecadores e provocaram o maior castigo de Deus sobre o mundo. Seriam aqueles que, nos tempos de Noé, haviam sido incrédulos às suas exortações ao arrependimento, mas que, quando se desencadeou o dilúvio, se arrependeram e, antes de morrer, pediram misericórdia a Deus.

Evidência 5: A Bíblia mostra os salvos na presença de Deus

No capítulo 11 de Hebreus, são mencionados todos os patriarcas e santos da antiguidade como testemunhas à nossa volta.

“Deste modo, também nós, circundados como estamos de tal nuvem de testemunhas, deixando de lado todo o impedimento e todo o pecado, corramos com perseverança a prova que nos é proposta.” (Hebreus 12,1)

O autor da epístola aos Hebreus utiliza aqui uma metáfora tirada dos jogos públicos, pelos quais a sociedade greco-romana era aficionada. Ele imagina que, assim como nesses jogos há toda uma nuvem de testemunhas a observar, do mesmo modo, nós, cristãos, estamos rodeados por toda uma “nuvem de testemunhas” que contempla o nosso esforço. Essas testemunhas, com efeito, são os antepassados que ele acabou de mencionar e que estão na cidade do Deus vivo, na assembleia dos primogénitos inscritos no Reino dos Céus, por serem os espíritos dos justos que alcançaram a consumação.

“Vós, porém, aproximastes-vos do monte Sião e da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, de miríades de anjos, da reunião festiva, da assembleia dos primogénitos inscritos nos céus, do juiz que é o Deus de todos, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição.” (Hebreus 12,22-23)

Aqui se fala dos espíritos dos justos. Esses justos ainda não ressuscitaram, o que se percebe claramente, em primeiro lugar, porque são chamados de espíritos e, em segundo lugar, porque a ressurreição terá lugar no último dia (João 6,39).

Outro texto em que se vê claramente as almas dos justos conscientes e na presença de Deus antes da ressurreição encontra-se no Apocalipse:

“E, quando Ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. E clamavam em alta voz: ‘Tu, que és o Poderoso, o Santo, o Verdadeiro! Até quando esperarás para julgar e tirar vingança do nosso sangue sobre os habitantes da terra?’” (Apocalipse 6,9-10)

Quando Estêvão (o primeiro mártir cristão) é martirizado, antes de morrer, vê o Céu abrir-se para receber o seu espírito:

“Mas este, cheio do Espírito Santo e de olhos fixos no Céu, viu a glória de Deus e Jesus de pé, à direita de Deus. ‘Olhai, disse ele, eu vejo o Céu aberto e o Filho do Homem de pé, à direita de Deus.’ Eles, então, soltaram um grande grito e taparam os ouvidos; depois, à uma, atiraram-se a ele e, arrastando-o para fora da cidade, começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram as capas aos pés de um jovem chamado Saulo. E, enquanto o apedrejavam, Estêvão orava, dizendo: ‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito.’ Depois, posto de joelhos, bradou com voz forte: ‘Senhor, não lhes atribuas este pecado.’ Dito isto, adormeceu.” (Atos 7,55-60)

As evidências a favor da imortalidade da alma são muitas. De facto, não apenas os cristãos, mas também os judeus (que reconhecem somente o Antigo Testamento) crêem nela. Apenas as seitas que precisamente estão à frente em profecias falhadas (adventistas e testemunhas de Jeová) insistem em negá-la, preferindo distorcer cada texto bíblico que lhes reprova o erro.

Este é um capítulo retirado do livro Compêndio de Apologética Católica de José Miguel Arráiz.


Notas

  1. Despertai 1982 (g82 22/10 25-27)
  2. Jn epist. Judae: PG 119,713
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