A Sucessão Apostólica na Bíblia

Este é um capítulo retirado do livro Compêndio de Apologética Católica de José Miguel Arráiz.

O que é a sucessão apostólica?

Para preservar a indefectibilidade da Igreja, Jesus Cristo, nosso Senhor, escolheu 12 de seus discípulos e lhes concedeu autoridade, poder e um ministério a cumprir: pastorear a Igreja. Com a expressão sucessão apostólica, a teologia indica que os Apóstolos, conscientes de que não viveriam para sempre e por vontade de Cristo, estavam destinados a ter sucessores que continuassem seu ministério, com a mesma autoridade que eles receberam de Cristo.

A autoridade

Quando Cristo nomeou seus Apóstolos, lhes conferiu autoridade:

“Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos: Simão, a quem chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago, João, Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.” (Lucas 6,13-16)

“Tendo convocado os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curarem doenças.” (Lucas 9,1)

Os Apóstolos sempre tiveram claro que sua autoridade vinha do próprio Cristo que os havia nomeado Apóstolos.

“Quando nos poderíamos impor como apóstolos de Cristo, fomos, antes, afectuosos no meio de vós, como uma mãe que acalenta os seus filhos quando os alimenta.” (1 Tessalonicenses 2,7)

Eles haviam sido enviados como o Pai havia enviado Cristo (com a mesma autoridade):

“E Ele voltou a dizer-lhes: ‘A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.’ Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.’” (João 20,21-23)

Eram os Apóstolos que fundavam Igrejas e que estabeleciam os mandamentos a serem obedecidos, ordenando com toda autoridade:

“Nas cidades por onde passavam, transmitiam e recomendavam aos irmãos que cumprissem as decisões tomadas pelos Apóstolos e pelos Anciãos de Jerusalém.” (Atos dos Apóstolos 16,4)

Nas cartas paulinas, vemos que é comum a São Paulo ordenar em todas as Igrejas:

“De resto, continue cada um a viver na condição que o Senhor lhe atribuiu e em que se encontrava quando Deus o chamou. É o que recomendo em todas as igrejas.” (1 Coríntios 7,17)

Embora na Igreja primitiva vejamos casos em que algumas pessoas tentam se apropriar de uma autoridade que não lhes pertence, suas atitudes são severamente condenadas. Exemplos podemos ver nas pessoas de Alexandre, Himeneu e Fileto, que por conta própria começaram a pregar doutrinas estranhas, desconsideraram a autoridade do Colégio Apostólico e foram excomungados.

“Esta é a recomendação que te confio, meu filho Timóteo, de acordo com o que predisseram algumas profecias a teu respeito: apoiado nelas, combate o bom combate, conservando a fé e a boa consciência. Alguns, que as rejeitaram, naufragaram na sua fé, como aconteceu com Himeneu e Alexandre, que entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar.” (1 Timóteo 1,18-20)

“Evita as vãs conversas profanas, pois só fazem prosperar a impiedade; e as palavras dessa gente proliferam como gangrena. Entre esses encontram-se Himeneu e Fileto, os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se deu e perverteram a fé de alguns.” (2 Timóteo 2,16-18)

A primeira sucessão apostólica

A primeira sucessão apostólica que vemos no Novo Testamento encontra-se no capítulo 1 dos Atos dos Apóstolos. São Pedro, como líder do Colégio Apostólico, declara que o cargo (“ministério”) de Judas Iscariotes ficou vago e propõe a necessidade de alguém o substituir:

“Por aqueles dias, Pedro levantou-se no meio dos irmãos – encontravam-se reunidas cerca de cento e vinte pessoas – e disse:

‘Irmãos, era necessário que a Escritura fosse cumprida, na qual o Espírito Santo, por boca de Davi, já havia falado sobre Judas, que foi guia dos que prenderam Jesus. Porque ele era um de nós e obteve um lugar neste ministério. Portanto, é conveniente que, entre os homens que andaram conosco todo o tempo que o Senhor Jesus viveu conosco, a partir do batismo de João até o dia em que foi levado para cima, um deles seja constituído testemunha conosco da sua ressurreição.’

Designaram dois: José, de apelido Barsabas, chamado Justo, e Matias. Fizeram, então, a seguinte oração:

‘Senhor, Tu que conheces o coração de todos, indica-nos qual destes dois escolheste para ocupar, no ministério apostólico, o lugar abandonado por Judas, que foi para o lugar que merecia.’

Depois, tiraram à sorte, e a sorte caiu em Matias, que foi incluído entre os onze Apóstolos.” (Atos dos Apóstolos 1,15-17.21-26)

Evidência bíblica da instituição de presbíteros pelos Apóstolos ou outros presbíteros/bispos previamente ordenados

Como vimos, estava claro para os Apóstolos que o ministério do apostolado não ficaria vago (mais tarde este ministério seria desempenhado pelos bispos). Os Apóstolos também estavam cientes de sua obrigação de garantir que seus sucessores pudessem exercer seu ministério plenamente, organizar igrejas e colocar a frente homens capazes, para que pudessem continuar a missão de levar o Evangelho a todas as nações. Assim, vemos como um dos principais objetivos dos Apóstolos era fundar igrejas e designar presbíteros nelas, conforme narrado no livro dos Atos dos Apóstolos:

“Depois de lhes terem constituído anciãos em cada igreja, pela imposição das mãos, e de terem feito orações acompanhadas de jejum, recomendaram-nos ao Senhor, em quem tinham acreditado.” (Atos dos Apóstolos 14,23)

Os presbíteros eram, no início, nomeados exclusivamente pelos Apóstolos, posteriormente também pelos bispos. Não é possível encontrar nenhum caso, tanto na Bíblia quanto na história da Igreja primitiva, em que igrejas locais são fundadas da maneira como o protestantismo faz hoje, onde alguém com carisma decide fundar uma igreja e assume o cargo de pastor. Exemplos claros vemos nas cartas paulinas, onde Paulo faz referência à ordenação de Timóteo como bispo através da imposição de mãos e o exorta a não instituir qualquer um como presbítero (fica claro que alguém não poderia se nomear a si mesmo presbítero):

“Por isso recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso. Portanto, não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas compartilha o meu sofrimento pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos, por santo chamamento, não em atenção às nossas obras, mas segundo o seu próprio desígnio e a graça a nós concedida em Cristo Jesus, antes dos séculos eternos.” (2 Timóteo 1,6-9)

“Não descures o carisma que está em ti, e que te foi dado através de uma profecia, com a imposição das mãos dos presbíteros.” (1 Timóteo 4,14)

Não imponhas as mãos a ninguém precipitadamente, nem te tornes cúmplice de pecados alheios. Conserva-te puro.” (1 Timóteo 5,22)

A menção que Paulo faz se refere à ordenação que Timóteo recebeu através da imposição de mãos do colégio de presbíteros[1]. O facto é que, para que uma ordenação fosse válida, o candidato precisava sempre ser ordenado em linha direta até chegar aos Apóstolos. Esta legítima linha de sucessão, onde os bispos recebem e continuam o ministério dos Apóstolos, é chamada de sucessão apostólica.

O mesmo acontece com Tito, que, sendo também bispo, Paulo ordena a ele organizar as igrejas e instituir presbíteros para sua governança.

“Deixei-te em Creta, para acabares de organizar o que ainda falta e para colocares presbíteros em cada cidade, de acordo com as minhas instruções.” (Tito 1,5)

A finalidade sempre era clara:

“Tu, pois, meu filho, sê forte na graça de Cristo Jesus. Quanto de mim ouviste, na presença de muitas testemunhas, transmite-o a pessoas de confiança, que sejam capazes de o ensinar também a outros.” (2 Timóteo 2,1-2)

Paulo deixou em suas cartas muitas recomendações sobre assuntos de governo da Igreja. Ele precisava garantir que os candidatos a estes ministérios fossem irrepreensíveis, porque sabia que lobos rapaces se infiltrariam no rebanho. Com estas diretrizes, a Igreja seria capaz de identificá-los e livrar-se deles.

“É digna de fé esta palavra: se alguém aspira ao episcopado, deseja um excelente ofício. Mas é necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, ponderado, de bons costumes, hospitaleiro, capaz de ensinar; que não seja dado ao vinho, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; que governe bem a própria casa, mantendo os filhos submissos, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará ele da igreja de Deus? Que não seja neófito, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação do diabo. Mas é necessário também que ele goze de boa reputação entre os de fora, para não cair no descrédito e nas ciladas do diabo. Qualidades do diácono – Do mesmo modo, os diáconos sejam pessoas dignas, sem duplicidade, não inclinados ao excesso de vinho, nem ávidos de lucros desonestos. Guardem o mistério da fé numa consciência pura. Sejam também eles, primeiro, postos à prova e só depois, se forem irrepreensíveis, exerçam o diaconado.” (1 Timóteo 3,1-10)

“Os presbíteros que exercem bem a presidência sejam julgados dignos de dupla honra, principalmente os que trabalham na pregação e no ensino. Pois a Escritura diz: Não açaimarás a boca do boi que debulha; e ainda: o operário é digno do seu salário. Não aceites denúncia contra um presbítero, se não for confirmada por duas ou três testemunhas. Aos que cometem faltas, repreende-os na presença de todos, para que também os demais se encham de temor.” (1 Timóteo 5,17-20)

“Depois de uma ou duas advertências, afasta-te do sectário, pois bem sabes que esse homem está transviado, peca e a si mesmo se condena.” (Tito 3,10-11)

A Igreja é visível

Muitas das denominações protestantes que rejeitam a doutrina da sucessão apostólica, costumam ver a Igreja, não como um organismo visível (composto por todos os batizados e as hierarquias estabelecidas pelos Apóstolos: bispos, presbíteros, diáconos), mas como um organismo invisível onde cada pessoa se une ao grupo cristão de sua escolha, e onde o principal é ter uma relação pessoal com Cristo. Para eles, não é essencial a que Igreja assistas, desde que a tua relação com Deus seja verdadeira. O problema deste enfoque é que perde de vista a unidade, que é uma das notas estabelecidas e queridas por Cristo para sua Igreja (um mesmo corpo, uma mesma fé e um único batismo). Embora honestamente equivocados, muitos membros destas comunidades eclesiais com pureza de intenção podem alcançar a salvação eterna[2], permanecer separados da plena unidade do corpo de Cristo e da ortodoxia sempre tem suas consequências (as heresias tornam o crente vulnerável ao pecado) e não está de acordo com a vontade de Deus. Além disso, a ideia de uma Igreja invisível confronta directamente o que a Bíblia ensina. Não seria possível São Paulo impor disciplina excomungando Himeneu, Alexandre e Fileto em uma Igreja invisível.

Na Escritura, a Igreja é sempre descrita não como um ente invisível, mas como o corpo de Cristo, onde os membros são claramente identificados e ocupam uma função.

“Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro. E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo, profetas; em terceiro, mestres; em seguida, há o dom dos milagres, depois o das curas, o das obras de assistência, o de governo e o das diversas línguas. Porventura são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Fazem todos milagres? Possuem todos o dom das curas? Todos falam línguas? Todos as interpretam?” (1 Coríntios 12,27-30)

Uma metáfora que é frequentemente usada na Bíblia para descrever a Igreja é a de um edifício espiritual, onde alguns são representados como fundações ou colunas (apóstolos), sendo a Pedra Angular Cristo.

“Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito.” (Efésios 2,19-22)

Fica claro que a visão de uma Igreja como um ser invisível, onde o conjunto de crentes está disperso, não é o que Cristo tinha em mente quando disse que haveria um só rebanho e um só pastor.

Embora compreensível, tal posição não é justificável. O protestantismo, na sua maioria, adoptou esta perspectiva para justificar a sua divisão. Neste modelo torcido de Igreja, realmente não é relevante que esteja dividida em diferentes grupos, inclusive com sérias diferenças doutrinárias. Na Escritura, não só não se encontra nada que justifique esta ideologia, como também condena severamente as divisões, ao ponto de chamar de anticristos os cismáticos e nos mandar afastarmos de quem cria divisões.

“Entretanto, irmãos, exorto-vos a que tenhais cautela com os que provocam divisões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.” (Romanos 16,17)

“Filhinhos, estamos na última hora. Ouvistes dizer que há-de vir um Anticristo; pois bem, já apareceram muitos anticristos; por isso reconhecemos que é a última hora. Eles saíram de entre nós, mas não eram dos nossos, porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido connosco; mas aconteceu assim para que ficasse claro que nenhum deles é dos nossos.” (1 João 2,18-19)

“Quanto a vós, caríssimos, lembrai-vos das coisas preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando vos diziam: ‘Nos últimos tempos haverá uns impostores, que viverão impiamente ao sabor das suas paixões.’ Estes são os que semeiam divisões, pessoas guiadas pelos instintos, pessoas que não têm o Espírito.” (Jude 1,17-19)

“Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento.” (1 Coríntios 1,10)

No entanto, nem todo o protestantismo rejeita a doutrina da sucessão apostólica. Algumas igrejas anglicanas e luteranas a aceitam, mas na prática, para a maioria, esta doutrina não é importante ou até mesmo é negada; eles sabem que, se reconhecessem, e sem ter uma sucessão apostólica legítima, a existência de sua Igreja não estaria justificada e teriam que reconhecer como inválida a autoridade de seus pastores. Em vez disso, a grande maioria das igrejas cismáticas que se separaram da Igreja Católica antes da Reforma a reconhece, incluindo as igrejas ortodoxas, nestorianas, etc.


Notas

  1. Pelo cedo testemunho de Ignácio de Antioquia, sabemos que os colégios de presbíteros eram liderados por um bispo (episcopado monárquico).
  2. Ver Catecismo da Igreja Católica 818, 819, 847.
Scroll to Top