A Igreja indefectível

Este é um capítulo retirado do livro Compêndio de Apologética Católica de José Miguel Arráiz.

O Reino de Deus chegou

No capítulo anterior, eu dizia que inexiste qualquer texto bíblico que, seriamente analisado, permita supor que a Igreja fundada por Jesus Cristo iria se corromper e cairia em uma apostasia que duraria mais de 1600 anos. Agora vou um pouco mais além para acrescentar que existem outros textos bíblicos (abundantes até) que assinalam a Era da Igreja como o Reino de Deus anunciado por nosso Senhor, em que os cristãos como “sal da terra” e “luz do mundo (Mateus 5,13-14) levariam o Evangelho a todo o mundo (Mateus 28,19).

“O Reino de Deus chegou até vós.” (Mateus 12,28)

“O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém poderá afirmar: 'Ei-lo aqui' ou 'Ei-lo ali', pois o Reino de Deus está entre vós.” (Lucas 17,21)

O Senhor não fala de um Reino que viria em um futuro distante, mas de um que já havia chegado e era anunciado aos novos crentes. Não fala senão da Era da Igreja, que mesmo com um início modesto, como um pequeno grão de mostarda (Marcos 4,31-32), não pararia de crescer até converter-se em uma árvore enorme que serviria de refúgio para todos aqueles que procuram a verdade com sinceridade. Outra parábola que contém a mesma ideia é a do fermento, em que seu crescimento é comparado a um pouco de farinha que depois de receber fermento não pára de crescer:

“Dizia também: «Com que havemos de comparar o Reino de Deus? Ou com qual parábola o representaremos? É como um grão de mostarda que, ao ser deitado à terra, é a mais pequena de todas as sementes que existem; mas, uma vez semeado, cresce, transforma-se na maior de todas as plantas do horto e estende tanto os ramos, que as aves do céu se podem abrigar à sua sombra.»” (Marcos 4,30-32)

O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado.” (Mateus 13,33)

Quando Jesus anuncia aos judeus que concederá o Reino dos Céus a um povo que renda frutos dele, está se referindo à Igreja, a quem encomendará que discipule as nações:

“Por isso vos digo: O Reino de Deus ser-vos-á tirado e será confiado a um povo que produzirá os seus frutos.” (Mateus 21,43)

“Então, desassombradamente, Paulo e Barnabé afirmaram: “Era primeiramente a vós que a palavra de Deus devia ser anunciada. Visto que a repelis e vós próprios vos julgais indignos da vida eterna, voltamo-nos para os pagãos, pois assim nos ordenou o Senhor: Estabeleci-te como luz dos povos, para levares a salvação até aos confins da Terra” (Is 49,6). Ao ouvirem isto, os pagãos encheram-se de alegria e glorificavam a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé.” (Atos 13,46-48)

Para atingir o seu objetivo, Jesus transmite a sua autoridade aos seus Apóstolos e designa Pedro como “mordomo”, entregando-lhe as chaves do Reino dos Céus ou – o que dá no mesmo – as chaves para governar a Igreja com autoridade:

“Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.” (Mateus 16,18-19)

Uma Nova Aliança

Observe como já no texto anterior a figura do Reino dos Céus começa a ser identificada com a Igreja. Jesus fala de edificar a sua Igreja e, para isso, entrega as chaves do Reino dos Céus a Pedro (Mateus 16,19). Nada na Escritura faz pensar que este Reino anunciado pelo Senhor deteria ou paralisaria o seu crescimento por um período de tantos séculos, como deduziu o Protestantismo. O grão de mostarda que se torna árvore ou o fermento que leveda deixam de crescer? Pelo contrário, desta nova aliança selada com o Sangue de Cristo encontramos numerosas profecias no Antigo Testamento que dão a entender justamente o inverso:

“Virá o Redentor a Sião, (…) esta é a minha aliança com eles, diz o Senhor: O meu Espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se desviarão da tua boca, nem da boca da tua descendência, nem da boca da descendência da tua descendência, diz o Senhor, desde agora e para todo o sempre.” (Isaías 59,20.21)

Dias virão em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá – oráculo do Senhor. Não será como a aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer sair da terra do Egipto, aliança que eles não cumpriram, embora Eu fosse o seu Deus – oráculo do Senhor. Esta será a Aliança que estabelecerei, depois desses dias, com a casa de Israel – oráculo do Senhor: Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo.” (Jeremias 31,31-33)

O autor da Carta aos Hebreus aponta claramente como esta nova aliança anunciada pelos Profetas encontra pleno cumprimento na Igreja:

“Mas, de facto, ele obteve um ministério tanto mais elevado, quanto maior é a aliança de que é mediador, a qual foi estabelecida sobre melhores promessas. Se, na verdade, a primeira fosse perfeita, não haveria lugar para a segunda. De facto, censurando-os, diz: Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova, não como a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os fazer sair do Egipto; porque eles não permaneceram na minha aliança, também Eu me desinteressei deles – diz o Senhor. Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, depois daqueles dias. Diz o Senhor: Porei as minhas leis na sua mente e as imprimirei nos seus corações; serei o seu Deus e eles serão o meu povo.” (Hebreus 8,6-10)

Entre outras profecias do Antigo Testamento que os Padres da Igreja aplicaram de forma unânime à Igreja, temos:

“E a pedra que golpeou a estátua converteu-se em um grande monte que preencheu toda a terra (…) No tempo destes reis, o Deus dos céus fará aparecer um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará para outro povo. Esmagará e aniquilará todos os outros, enquanto ele subsistirá para sempre.” (Daniel 2,44)

“No fim dos tempos o monte do templo do Senhor estará firme, será o mais alto de todos, e dominará sobre as colinas. Acorrerão a ele todas as gentes, virão muitos povos e dirão: «Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos, e nós andaremos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor.” (Isaías 2,2-3; também em Miqueias 4,1-2)

“Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo; alegram-se diante de ti como os que se alegram no tempo da colheita, como se regozijam os que repartem os despojos. Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz. Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites, sobre o trono de David e sobre o seu reino. Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça, desde agora e para sempre. Assim fará o amor ardente do Senhor do universo.” (Isaías 9,2.5.6)

“Embora o Senhor te dê o pão da angústia e a água da tribulação, já não se esconderá mais o teu mestre. Tu o verás com os teus próprios olhos. Ouvirás atrás de ti esta palavra, quando tiveres de caminhar para a direita ou para a esquerda: ‘Este é o caminho a seguir.’” (Isaías 30,20-21)

“Disse-me: ‘Não basta que sejas meu servo, só para restaurares as tribos de Jacob, e reunires os sobreviventes de Israel. Vou fazer de ti luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra.’ Eis o que diz o Senhor, o redentor e Deus santo de Israel, ao desprezado e abandonado pelas gentes, ao escravo dos tiranos: «Os reis hão-de levantar-se ao ver-te, os príncipes se prostrarão, porque o Senhor é fiel, porque o Santo de Israel te escolheu.» Hás-de ouvir dizer aos filhos que julgavas perdidos: «Este lugar é demasiado estreito; chega-te para aí, para eu poder habitar.» E tu perguntarás: «Quem me deu à luz estes filhos? Eu não tinha filhos, era estéril, quem os criou? Estava desamparada e só; donde vieram estes?» Isto diz o Senhor Deus: «Olha como Eu com a minha mão faço um sinal às nações, levanto o meu estandarte para os povos: trarão os teus filhos nos braços, e as tuas filhas aos ombros. Os seus reis serão os teus protectores, as suas princesas as tuas amas; prostrando-se diante de ti, com o rosto por terra, lamberão o pó dos teus pés. Então reconhecerás que Eu sou o Senhor, e que não serão confundidos os que confiam em mim.” (Isaías 49,6-7.20-23)

Os seguintes textos do Novo Testamento aplicam-se também à Igreja, que congrega pessoas de todas as raças e nações:

“Pois assim nos ordenou o Senhor: ‘Estabeleci-te como luz dos povos, para levares a salvação até aos confins da Terra.’” (Atos dos Apóstolos 13,47)

“Agora, Senhor, segundo a tua palavra, deixarás ir em paz o teu servo, porque meus olhos viram a Salvação que ofereceste a todos os povos, Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo.” (Lucas 2,29-32)

Ver também Isaías 52,1.7.10.13-15 e compare-se com Romanos 10,15; 15,21; Lucas 3,6.

“Exulta de alegria, estéril, tu que não tinhas filhos, entoa cânticos de júbilo, tu que não davas à luz, porque os filhos da desamparada são mais numerosos do que os da mulher casada. É o SENHOR quem o diz. Alarga o espaço da tua tenda, estende sem medo as lonas que te abrigam, e estica as tuas cordas, fixa bem as tuas estacas, porque vais aumentar por todos os lados. Os teus descendentes possuirão as nações, e povoarão cidades desertas. Vou agir como no tempo de Noé: jurei que nunca mais o dilúvio se abateria sobre a terra. Do mesmo modo, juro nunca mais me irritar contra ti, nem te ameaçar. Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será abalado, e a minha aliança de paz nunca mais vacilará. Quem o diz é o Senhor, que tanto te ama. Nenhuma arma fabricada contra ti terá sucesso, nenhuma língua que te acusar em tribunal poderá condenar-te. Esta é a herança dos servos do Senhor, esta é a vitória que Eu lhes garanto. – Oráculo do Senhor.” (Isaías 54,1.2.3.9-10.17)

Esta profecia é expressamente aplicada por São Paulo à Igreja em Gálatas 4,22-31. Compare também com Romanos 9,24-26.

As notas da Igreja

Esta Igreja que era vista como a cidade elevada sobre a colina, teria que contar com certas características ou notas que permitissem preservar e propagar o Evangelho a todas as nações. Entre estas notas, podemos mencionar:

1) Visibilidade Perpétua: não poderia ser luz do mundo uma Igreja que não pudesse ser identificada ou reconhecida.

2) Apostolicidade: Jesus concedeu aos Apóstolos o triplo poder de ensinar, santificar e governar a sua Igreja até o fim dos séculos (Mateus 28,18-20). Portanto, a Igreja deve ser apostólica: (a) na sua origem, ou seja, deve ser hoje a mesma que foi fundada sobre os Apóstolos; (b) em sua doutrina, ensinando as mesmas verdades que os Apóstolos; (c) em sua sucessão, ou seja, governada, instruída e santificada pelos legítimos sucessores dos Apóstolos. Não seria, como assumiram os protestantes, uma Igreja que desapareceria por séculos.

3) Catolicidade: a Igreja deve ser católica, isto é, universal, e deve sê-lo em três sentidos: (a) de tempo ou duração, “sempre, até o fim do mundo” (Mateus 28,20) ou “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à maturidade da plenitude de Cristo” (Efésios 4,13); (b) de lugar ou extensão, já que encontra-se aberta a “todas as nações” e “a toda criatura” (Génesis 22,18; Mateus 24,14; Lucas 24,47; Atos 15,17; Gálatas 3,8); (c) de fé ou doutrina, para ensinar “todas as coisas que” seu Senhor lhes havia “ordenado”, “toda a verdade”.

4) Unidade: a unidade da Igreja permite sua visibilidade e, por isso, Jesus a pediu expressamente ao Pai, na noite da Paixão, como sinal distintivo da sua Igreja.

“Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu me deste, de modo que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim. Pai, quero que onde Eu estiver estejam também comigo aqueles que Tu me confiaste, para que contemplem a minha glória, a glória que me deste, por me teres amado antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas Eu conheci-te e estes reconheceram que Tu me enviaste.” (João 17,20-25)

Esta unidade deve possuir uma tripla manifestação: (a) de fé (Já mencionado anteriormente como Catolicidade de doutrina), pois a verdade é uma só e a Igreja é depositária desta verdade; (b) de governo, porque Jesus criou nela um corpo diretivo integrado pelos Apóstolos: por Pedro e por seus sucessores dotados da plenitude de poderes; (c) de comunhão, onde todos os membros unificam seus esforços com a finalidade de ensinar a Revelação para alcançar a salvação das almas. Daí São Paulo ensinar que a Igreja é um só Corpo e um só Espírito (Efésios 4,4), devendo estar unida em “uma só fé, um só batismo” (Efésios 4,5).

Jesus advertiu que um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir (Marcos 3,24). Satanás sabe que a Igreja não pode dividir-se porque é UNA, porém sabem que pode afastar os cristãos de sua comunhão.

5) Infalibilidade ou Inerrância: tampouco poderia ser luz do mundo uma Igreja que se corrompesse e ensinasse o erro. Desta maneira, Deus preparou para a sua Igreja o precioso dom da indefectibilidade mesmo sendo formada por seres humanos, frágeis e pecadores; seria sempre “a Igreja do Deus Vivo, coluna e fundamento da verdade (1 Timóteo 3,15). Rejeitar os seus legítimos representantes seria rejeitar o próprio Deus: Quem vos ouve, a Mim me ouve; e quem vos rejeita, a Mim me rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que me enviou (Lucas 10,16), pois eles seriam os administradores dos mistérios de Deus (1 Coríntios 4,1) e, para isso, contava-se com a promessa de receber o Espírito Santo para guiá-los à verdade completa (João 16,13).

O Protestantismo, em suas diferentes denominações, carece de unidade de fé, de governo, de comunhão e de Apostolicidade, pois surgiu no século XVI, quando o Cristianismo já tinha 15 séculos de existência. As igrejas orientais separadas, ainda que possuam sacramentos válidos e sucessão apostólica, carecem também de unidade de fé, de governo, de comunhão e, também, de Catolicidade, pois cada uma é autocéfala, independente e incapaz de se expandir universalmente.

Por isso, professamos que existe uma Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, que foi fundada por Jesus Cristo, sobre a qual as portas do inferno não prevalecerão. Somente nesta Igreja, que é “auxílio geral de salvação”, se pode alcançar a plenitude total dos meios de salvação. Creio que o Senhor confiou todos os bens da Nova Aliança a um único Colégio Apostólico presidido por Pedro, para constituir um só corpo de Cristo na terra, ao qual se devem incorporar plenamente todo aquele que de algum modo já pertença ao Povo de Deus (Unitatis Redintegratio 3).


Notas

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